Doenças do aparelho digestivo

Pancreatite

O que é pancreatite?


Pancreatite é a inflamação do pâncreas. O pâncreas é uma glândula grande situada atrás do estômago e perto do duodeno - a primeira parte do intestino delgado. Ele secreta sucos digestivos, ou enzimas, para o duodeno através de um tubo chamado ducto pancreático.

As enzimas pancreáticas juntam-se com a bile, um líquido produzido no fígado e armazenada na vesícula biliar - para digerir os alimentos. O pâncreas também libera os hormônios insulina e glucagon na corrente sanguínea. Estes hormônios ajudam o corpo a regular a glicose tomada dos alimentos para a energia.

Normalmente, as enzimas digestivas secretadas pelo pâncreas não se tornam ativas até atingirem o intestino delgado. Mas quando o pâncreas está inflamado, as enzimas no seu interior atacam e danificam os tecidos que as produzem.

A pancreatite pode ser aguda ou crônica. Qualquer uma das formas é grave e pode levar a complicações. Em casos graves, podem ocorrer hemorragia, infecção e dano tecidual permanente.

A vesícula biliar e os ductos que transportam a bile e outras enzimas digestivas do fígado, vesícula biliar e pâncreas para o intestino delgado são denominados de sistema biliar.

Ambas as formas de pancreatite ocorrem mais frequentemente em homens do que em mulheres.

O que é pancreatite aguda?


Pancreatite aguda é a inflamação do pâncreas que ocorre de maneira súbita e geralmente se resolve em poucos dias com o tratamento. A pancreatite aguda pode ser uma doença fatal com complicações graves. Cada ano, milhares de pessoas são admitidas em hospitais com a doença.

A causa mais comum de pancreatite aguda é a presença de cálculos biliares - pequenas “pedras” formadas por bile que endureceu - que causam a inflamação no pâncreas, assim que passam através do ducto biliar comum. O uso crônico e pesado de álcool também é uma causa de pancreatite, havendo discussão na literatura médica se ele pode causar a forma aguda da doença ou ser, desde o princípio, a manifestação de uma pancreatite crônica.

A pancreatite aguda pode ocorrer dentro de horas ou até 2 dias depois de consumir álcool. Outras causas de pancreatite aguda são o trauma abdominal, medicamentos, infecções, tumores e anormalidades genéticas do pâncreas.

Sintomas

A pancreatite aguda geralmente começa com uma dor gradual ou súbita no abdômen superior que às vezes se irradia para o dorso. Ela pode ser suave no início e piorar depois de comer. Mas a dor frequentemente é acentuada e pode se tornar constante e durar vários dias. Uma pessoa com pancreatite aguda geralmente parece e se sente muito doente precisando de atenção médica imediata.

Outros sintomas podem ser:

  • abdome distendido e sensível
  • náuseas e vômitos
  • febre
  • pulso rápido

A pancreatite aguda grave pode causar desidratação e pressão baixa. O coração, pulmões ou rins podem falhar. Se o ocorrer hemorragia no pâncreas, o choque e até mesmo a morte podem se seguir.

Diagnóstico

Na consulta médica será avaliado o histórico médico da pessoa, realizado exame físico minucioso e o doutor requisitará exames de sangue para auxiliar o diagnóstico. Durante a pancreatite aguda, o sangue contém pelo menos três vezes a quantidade normal de amilase e lipase, enzimas digestivas produzidas no pâncreas.

Outras alterações também podem ocorrer no estudo bioquímico como a glicose, cálcio, magnésio, sódio, potássio e bicarbonato. Ao melhorar a condição clínica da pessoa os níveis geralmente retornam ao normal.
O diagnóstico de pancreatite aguda muitas vezes é difícil devido à localização profunda do pâncreas.

O médico poderá solicitar um ou mais dos seguintes exames:

  • Ultrassom abdominal: As ondas sonoras são enviadas para o pâncreas através de um dispositivo portátil que o médico desliza sobre o abdômen. As ondas sonoras ricocheteiam no pâncreas, vesícula biliar, fígado e outros órgãos, e seus ecos fazem os impulsos elétricos criar uma imagem - chamado sonograma - em um monitor de vídeo. Se os cálculos biliares estão causando inflamação, as ondas sonoras também ricocheteiam neles, mostrando sua localização.
     
  • Tomografia computadorizada (TC): A tomografia computadorizada é um raio-x não-invasivo que produz imagens tridimensionais de partes do corpo. A pessoa deita-se em uma mesa que desliza, em uma máquina em forma de túnel. O teste pode mostrar os cálculos biliares e a extensão dos danos ao pâncreas.
     
  • Ultrassom endoscópico (USE): Depois de pulverizar uma solução para adormecer a garganta do paciente, o médico insere um endoscópio - um tubo fino, flexível e iluminado - através da garganta para o estômago e intestino delgado. O médico liga um ultrassom anexado ao endoscópio, que produz ondas sonoras, para criar imagens do pâncreas e vias biliares.
     
  • Colangiopancreatografia por ressonância magnética (CPRM): A CPRM utiliza a ressonância magnética, um teste não invasivo que produz imagens de seção transversal de partes do corpo. Após ser levemente sedado, o paciente deita-se em um tubo de cilindro, para o exame. O técnico injeta contraste nas veias do paciente que ajuda a mostrar o pâncreas, vesícula biliar, vias biliares. e ducto pancreático.
     

Tratamento

O tratamento da pancreatite aguda requer internação por alguns dias no hospital para administração de soros intravenosos (IV), antibióticos e medicamentos para aliviar a dor. A pessoa não pode comer ou beber, para que o pâncreas possa descansar. Se ocorrerem vômitos, uma sonda pode ser introduzida através do nariz até o estômago para remover o líquidos e ar.

Se não ocorrer complicações, a pancreatite aguda geralmente resolve em poucos dias. Em casos graves, a pessoa pode necessitar de alimentação por sonda nasoenteral — uma dieta líquida, especial, é administrada através de um tubo longo e fino, inserido através do nariz e da garganta até o intestino delgado— por várias semanas, enquanto o pâncreas se recupera.

Antes de deixar o hospital, a pessoa será informada para não fumar, ingerir bebidas alcoólicas ou refeições gordurosas. Em alguns casos, a causa da pancreatite é clara, mas em outros, pode ser necessário mais exames depois que o pâncreas está recuperado e a pessoa receber alta hospitalar.

Colangiopancreatografia Endoscópica Retrógrada Terapêutica (CPER) para Pancreatite Aguda e Crônica

A CPER é uma técnica especializada utilizada para exibir o pâncreas, vesícula biliar e ductos biliares e tratar complicações da pancreatite aguda e crônica - cálculos biliares, estreitamento ou obstrução do ducto pancreático ou dos ductos biliares, vazamentos nos ductos biliares e pseudocistos — acúmulos de líquidos e detritos teciduais.

Logo depois que a pessoa é internada em hospital com suspeita de estreitamento do ducto pancreático ou ductos biliares, um médico com formação especializada executa CPER.

Depois de sedar o paciente e dar medicação para aliviar a garganta, o médico insere um endoscópio — um tubo longo, flexível e iluminado com uma câmera - através da boca, garganta e estômago para o intestino. O endoscópio é conectado a um computador e tela de vídeo.

O médico orienta o endoscópio e injeta um contraste especial para o pâncreas ou vias biliares que ajuda a visualizar o pâncreas, a vesícula biliar e os ductos biliares na tela, enquanto as imagens de raios x são realizadas.

Os seguintes procedimentos podem ser executados usando a CPER:

  • Esfincterotomia: Usando um pequeno fio de um acessório passado através do endoscópio, o médico encontra o músculo que rodeia o ducto pancreático ou ductos biliares e faz um pequeno corte para ampliar a abertura do mesmo. Quando um pseudocisto estiver presente, o ducto é drenado.
     
  • Retirada de cálculos de colédoco: O endoscópio é usado para remover pedras (cálculos) do ducto pancreático ou biliar com uma pequena cesta ou balão. Às vezes, a remoção da vesícula biliar é realizada juntamente com uma esfincterotomia.
     
  • Introdução de próteses (stents): Usando o endoscópio, o médico coloca um pequeno pedaço de plástico ou de metal (prótese), parecido com um canudinho, em um estreitamento do ducto pancreático ou biliar para mantê-lo aberto.
     
  • Dilatação com balão: do ducto pancreático ou biliar. Uma prótese temporária pode ser colocada por poucos meses para manter o ducto aberto. As pessoas que se submetem à CPER terapêutica apresentam um pequeno risco de complicações, como pancreatite grave, infecção, perfuração do intestino ou hemorragia.

    As complicações da CPER são mais comuns em pessoas com pancreatite aguda ou recorrente. Um paciente que tem febre, dificuldade para engolir ou sente a garganta aumentada, dor no peito ou dor abdominal após o procedimento, deve notificar imediatamente ao médico.

     

Complicações

Os cálculos biliares que provocam pancreatite aguda exigem a remoção cirúrgica das pedras e da vesícula biliar. Se a pancreatite for moderada, a remoção da vesícula biliar - chamado de colecistectomia - pode ser realizada enquanto a pessoa está no hospital.

Se a pancreatite for grave, os cálculos biliares podem ser removidos usando a colangiopancreatografia endoscópica retrógrada terapêutica (CPER) — uma técnica especializada utilizada para ver o pâncreas, a vesícula biliar e os ductos biliares e tratar as complicações da pancreatite aguda e crônica. A colecistectomia é adiada por um mês ou mais para permitir a recuperação completa.

Se uma infecção se desenvolve, a CPER ou a cirurgia pode ser necessária para drenar a área infectada, também chamada de abscesso. A cirurgia exploratória também pode ser necessária para encontrar a fonte de qualquer hemorragia, para descartar condições que se assemelham à pancreatite ou remover tecido pancreático necrosado.

Pseudocistos - são acúmulos de líquidos e detritos de tecido — que pode desenvolver-se no pâncreas e podem ser drenados por CPRE ou ultrassom endoscópico (USE). Se os pseudocistos são deixados sem tratamento, as enzimas e toxinas podem entrar na corrente sanguínea e afetar o coração, pulmões, rins ou outros órgãos.
A pancreatite aguda algumas vezes pode causar insuficiência renal. Pessoas com insuficiência renal necessitam de tratamentos para limpar o sangue, chamados de diálise ou um transplante de rim.

Em raros casos, a pancreatite aguda pode causar problemas respiratórios. A hipóxia, uma condição que ocorre quando as células do corpo e dos tecidos não recebem oxigênio suficiente, pode se desenvolver. Os médicos tratam a hipóxia administrando oxigênio ao paciente. Algumas pessoas podem apresentar ainda insuficiência pulmonar - apesar do oxigênio - e exigir um respirador por um período para ajudá-los a respirar.

  • 1Russo MW, Wei JT, Thiny MT, et al. Digestive and liver disease statistics, 2004. Gastroenterology. 2004;126:1448–1453.
     

O que é pancreatite crônica?


Pancreatite crônica é uma inflamação do pâncreas que não melhora ou cura — piora ao longo do tempo e leva a lesões permanentes. A pancreatite crônica, assim como a pancreatite aguda, ocorre quando as enzimas digestivas atacam o pâncreas e os tecidos vizinhos, causando episódios de dor. A pancreatite crônica geralmente se desenvolve em pessoas que estão entre as idades de 30 e 40 anos.

A causa mais comum de pancreatite crônica é o uso pesado de álcool por muitos anos. A forma crônica da pancreatite pode ser desencadeada por um ataque agudo que danifica o ducto pancreático. O ducto danificado faz com que o pâncreas se torne inflamado. A cicatriz tecidual se desenvolve e o pâncreas é lentamente destruído.

As outras causas de pancreatite crônica são:

  • Desordens hereditárias do pâncreas
  • Fibrose cística - a mais comum das desordens hereditárias que levam à pancreatite crônica
  • hipercalcemia - altos níveis de cálcio no sangue
  • hiperlipidemia ou hipertrigliceridemia - níveis altos de gorduras no sangue
  • alguns medicamentos
  • certas condições autoimunes
  • causas desconhecidas
     

A pancreatite hereditária pode ocorrer em uma pessoa mais jovem, abaixo de 30 anos, mas pode não ser diagnosticada por vários anos. Episódios de dor abdominal e diarréia que duram vários dias, vêm e vão ao longo do tempo e podem progredir para pancreatite crônica. O diagnóstico de pancreatite hereditária é provável se a pessoa tem dois ou mais membros da família com pancreatite em mais de uma geração.

Sintomas

A maioria das pessoas com pancreatite crônica apresentam dor em abdome superior, embora algumas pessoas podem não ter nenhuma dor. A dor pode se irradiar para as costas, piorar ao comer ou beber e tornar-se constante e incapacitante. Em alguns casos, a dor abdominal vai embora quando essa doença piora, provavelmente porque o pâncreas não está mais produzindo enzimas digestivas.

Outros sintomas são:

  • náuseas
  • vômitos
  • perda de peso
  • diarreia
  • fezes gordurosas
     

Pessoas com pancreatite crônica, muitas vezes, perdem peso, mesmo quando seu apetite e hábitos alimentares estão normais. A perda de peso ocorre porque o corpo não secreta enzimas pancreáticas suficientes para digerir o alimento, sendo que então os nutrientes não são absorvidos normalmente. A má digestão leva à desnutrição devido a excreção de gordura nas fezes.

Diagnóstico

A pancreatite crônica é frequentemente confundida com a pancreatite aguda, porque os sintomas são semelhantes. Como na pancreatite aguda, o médico irá realizar uma minuciosa história clínica e exame físico. Exames de sangue podem ajudar a saber se o pâncreas ainda está fazendo enzimas digestivas suficientes, mas às vezes, estas enzimas parecem normais mesmo que a pessoa tenham pancreatite crônica.

Em estágios mais avançados, quando pode ocorrer má absorção e diabetes, o médico poderá solicitar exames de sangue, urina e de fezes para ajudar a diagnosticar a pancreatite crônica e monitorar sua progressão.

Após solicitar raios-x do abdômen, o médico irá realizar um ou mais dos testes usados para diagnosticar a pancreatite aguda - CPRM, USE, tomografia computadorizada e ultrassom abdominal.

Tratamento

O tratamento da pancreatite crônica pode necessitar hospitalização para tratamento da dor, hidratação IV e suporte nutricional. A alimentação por sonda nasoenteral pode ser também necessária, por várias semanas, se a pessoa continuar a perder peso.

Quando é retomada a dieta normal, o médico pode receitar enzimas pancreáticas sintéticas se o pâncreas não secreta o suficiente. As enzimas devem ser tomadas junto a cada refeição para ajudar a digerir os alimentos e a pessoa recuperar peso. O próximo passo é planejar uma dieta nutricional com baixo teor de gordura, refeições pequenas e frequentes.

A nutricionista pode ajudar a desenvolver um esquema de refeições. Também é importante ingerir líquidos em abundância e limitar bebidas cafeinadas.

Pessoas com pancreatite crônica devem ser fortemente aconselhadas a não fumar ou consumir bebidas alcoólicas, mesmo se a pancreatite for moderada ou nas suas fases iniciais.

Complicações

Pessoas com pancreatite crônica, que continuam a consumir grandes quantidades de álcool, podem desencadear crises súbitas de dor abdominal.

Como na pancreatite aguda, CPER é utilizada para identificar e tratar as complicações associadas com a pancreatite crônica como cálculos biliares, pseudocistos e estreitamento ou obstrução dos ductos. Pancreatite crônica também pode levar à calcificação do pâncreas, que significa que o tecido pancreático endurece de depósitos de sais de cálcio insolúveis.

A cirurgia pode ser necessária para remover a parte do pâncreas.
Em casos com dor persistente, pode ser recomendado cirurgia ou outros procedimentos para bloquear os nervos da região abdominal que causam dor.

Quando, na pancreatite crônica, o tecido pancreático for destruído e as células produtoras de insulina do pâncreas danificadas, chamadas células beta, pode ocorrer a diabetes. Pessoas com histórico familiar de diabetes são mais propensas a desenvolver a doença.

Se o diabetes ocorrer, será necessário insulina ou outros medicamentos para manter a glicose no sangue em níveis normais. O médico, juntamente com o paciente, irá desenvolver um plano medicamentoso, de dieta e monitoramento frequente da glicose no sangue

O quanto é comum a pancreatite em crianças?


A pancreatite crônica em crianças é rara. Trauma de pâncreas e pancreatite hereditária são duas causas conhecidas de pancreatite na infância. Crianças com fibrose cística - uma doença pulmonar progressiva e incurável - podem estar sob risco de desenvolver pancreatite. Mais frequentemente a causa da pancreatite em crianças é desconhecida.

Pontos para lembrar
 

  • A pancreatite é uma inflamação do pâncreas, fazendo com que as enzimas digestivas fiquem ativas dentro do pâncreas e causem danos ao tecido pancreático.
     
  • A pancreatite tem duas formas: aguda e crônica.
     
  • As causas comuns de pancreatite são cálculos na vesícula e etilismo pesado.
     
  • Em algumas ocasiões a causa da pancreatite pode não ser encontrada.
     
  • Os sintomas de pancreatite aguda são: dor abdominal, náuseas, vômitos, febre e pulso rápido.
     
  • O tratamento da pancreatite aguda inclui líquidos intravenosos (IV), antibióticos a analgésicos. A cirurgia algumas vezes pode ser necessária para tratar complicações.
     
  • A pancreatite aguda pode tornar-se crônica se o tecido pancreático for destruído permanentemente e se desenvolva uma cicatriz fibrosa.
     
  • Os sintomas de pancreatite crônica incluem dor abdominal, náuseas, vômitos, perda de peso, diarreia e fezes gordurosas.
     
  • No tratamento para pancreatite crônica pode ser necessário líquidos intravenosos, analgésicos, dieta hipogordurosa e suplementos enzimáticos. A cirurgia pode, eventualmente, ser necessária para retirar parte do pâncreas.
     

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