Doenças do aparelho digestivo

Esôfago de Barrett

O que é esôfago de Barrett?

 

Esôfago de Barrett é uma condição na qual o tecido que reveste o esôfago - o tubo muscular que transporta alimentos e líquidos da boca para o estômago - é substituído por tecido semelhante ao de revestimento do intestino. Este processo chama-se metaplasia intestinal. Pessoas com esôfago de Barrett têm maior risco para um tipo raro de câncer chamado adenocarcinoma de esôfago.

O que é o trato gastrointestinal superior (GI)?

 

O trato GI superior inclui a boca, esôfago, estômago e intestino delgado. O estômago bombeia lentamente os alimentos e líquidos para o intestino, que absorve, então, os nutrientes necessários. Este processo é automático, e geralmente não é percebido, embora alguém possa, às vezes, sentir o seu esôfago quando engolem algo muito grande, tentam comer muito rápido ou bebem algo muito quente ou gelado.

As camadas musculares do esôfago são mantidas mais apertadas na parte superior e inferior do órgão por músculos chamados esfíncteres. Quando uma pessoa engole, os esfíncteres relaxam para permitir que a comida ou bebida possa passar da boca para o estômago. Os músculos, em seguida, fecham rapidamente para impedir que o alimento ou bebida retorne do estômago e voltem para o esôfago e boca.

  • 1Gilbert EW, Luna RA, Harrison VL, Hunter JG. Barrett’s esophagus: a review of the literature.Journal of Gastrointestinal Surgery. 2011;15:708–718.
  • 2Spechler SJ, Souza RF. Barrett esophagus and esophageal adenocarcinoma. In: Yamada T, ed. Textbook of Gastroenterology. Vol. 1. West Sussex, UK: Wiley-Blackwell; 2009: 826–848.

 

O que causa esôfago de Barrett?

 

A causa exata do esôfago de Barrett é desconhecida, mas a doença do refluxo gastroesofágico (DRGE) é um fator de risco para a condição. A DRGE é uma forma mais grave, crônica - ou de longa duração - de refluxo gastroesofágico, uma condição em que o conteúdo do estômago volta para o esôfago.

O ácido refluído do estômago que entra em contato com o revestimento do esôfago pode provocar azia e causar lesões das células do esôfago. A azia, também chamada de indigestão ácida, é uma sensação desconfortável, ardente no tórax, atrás do esterno, ou na parte superior do abdome - a área entre o peito e o quadris.

Entre 5 e 10 por cento das pessoas com DRGE desenvolvem esôfago de Barrett3 .Outros fatores de risco são a obesidade — especificamente a altos níveis de gordura na barriga  (gordura abdominal)— e o fumo. Alguns estudos sugerem que outros fatores, genéticos ou adquiridos, também podem ter algum papel.

  • 3Phillips WA, Lord RV, Nancarrow DF, Watson DI, Whiteman DC. Barrett’s esophagus. Journal of Gastroenterology and Hepatology. 2011;26:639–648.

 

Quais os fatores que diminuem o risco de uma pessoa ter esôfago de Barrett?

 

A infecção pelo Helicobacter pylori (H. pylori) pode diminuir o risco de desenvolver esôfago de Barrett. O H. pylori é uma bactéria em forma de espiral, encontrada no estômago que pode danificar o tecido do duodeno e estômago - a primeira parte do intestino delgado.

Desconhece-se o mecanismo pelo qual o H. pylori fornece a proteção para o esôfago de Barrett. Enquanto a bactéria danifica o tecido no duodeno e no estômago, alguns pesquisadores acreditam que as bactérias podem tornar o conteúdo do estômago menos prejudicial para o esôfago quando a DRGE está presente.

Outros fatores que podem reduzir o risco para desenvolver esôfago de Barrett incluem o uso frequente de aspirina ou outros anti-inflamatórios e alta ingestão de frutas, vegetais e vitaminas.

Como é diagnosticado o esôfago de Barrett?
 

O esôfago de Barrett é diagnosticado através de uma endoscopia digestiva alta (EDA) e biópsia. A EDA requer o uso de um endoscópio - um pequeno tubo flexível com uma luz - para ver o trato gastrointestinal superior. O exame é realizado em um hospital ou ambulatoriamente, por um gastroenterologista - médico especialista em doenças do aparelho digestivo.

O endoscópio é cuidadosamente introduzido através do esófago, estômago e duodeno. Uma pequena câmera montada sobre o endoscópio transmite uma imagem de vídeo para um monitor, permitindo o exame pormenorizado da mucosa intestinal. A pessoa pode receber um anestésico líquido que é gargarejado ou pulverizado na parte de trás da garganta. Uma agulha intravenosa de (IV) é colocada em uma veia no braço, quando é realizada a sedação, para permitir a introdução do sedativo. O exame pode mostrar alterações na superfície da mucosa (parede) esofágica.

O gastroenterologista realiza uma biópsia com o endoscópio, tomando um pequeno pedaço de tecido do revestimento esofágico para ser examinado com auxílio de um microscópio. A pessoa nada sentirá à biópsia. O patologista - médico especializado no diagnóstico de doenças - examina o tecido em laboratório para determinar se as células do esôfago de Barrett estão presentes. O resultado do exame pode necessitar confirmação por outro patologista com experiência em diagnosticar esta condição.


Esôfago normal


Esôfago de Barrett

 

Qual o risco de adenocarcinoma do esôfago em pessoas com esôfago de Barrett?


O risco de adenocarcinoma esofágico em pessoas com esôfago de Barrett é cerca de 0,5 por cento por ano2. Tipicamente, antes do adenocarcinoma de esôfago se desenvolver, células pré-cancerosas aparecem no tecido de Barrett. Esta condição é chamada displasia e é classificada como de baixo ou alto grau.

O esôfago de Barrett pode estar presente por muitos anos antes do câncer se desenvolver. Uma EDA periódica com biópsia é muitas vezes realizada para monitorar pessoas com esôfago de Barrett e procurar sinais de desenvolvimento de câncer. Esta abordagem é chamada de vigilância.

Especialistas não chegaram a um consenso sobre a frequência com que a vigilância endoscópica deva ser executada; portanto, pessoas com esôfago de Barrett devem falar com o seu médico para determinar qual o nível de vigilância é melhor para eles. Na maioria dos casos, endoscopias mais frequentes são recomendadas para pessoas com displasia de alto grau em comparação com aqueles com nenhuma ou displasia de baixo grau.

Como é tratado o esôfago de Barrett?
 


Um médico irá discutir as opções de tratamento para esôfago de Barrett, baseado na saúde geral da pessoa, se a displasia está presente e, caso afirmativo, a gravidade da displasia. Opções de tratamento incluem medicamentos, terapias ablativas endoscópicas, ressecção endoscópica da mucosa e cirurgia.

Medicamentos

Pessoas com esôfago de Barrett, portadoras de DRGE, são tratadas com medicamentos ácido-supressores, chamados inibidores da bomba de prótons. Estes medicamentos são utilizados para evitar maiores danos ao esôfago e, em alguns casos, curar lesões já existentes. Fazem parte dos inibidores da bomba de prótons o omeprazol , lansoprazol , pantoprazol , rabeprazol e esomeprazol, que estão disponíveis sob prescrição. O omeprazol também está disponível na rede pública de saúde. A cirurgia anti-refluxo pode ser considerada para pessoas com sintomas de DRGE que não respondem aos medicamentos. No entanto, nem os medicamentos nem a cirurgia (fundoplicatura) reduzem o risco da pessoa vir a ter displasia ou adenocarcinoma de esôfago.

Tratamentos endoscópicos ablativos

Os tratamentos endoscópicos ablativos usam diferentes técnicas para destruir o epitélio de Barrett numa profundidade suficiente para eliminar a metaplasia/displasia e permitir que o corpo, então,  produza células esofágicas normais. Estes procedimentos são realizados por um endoscopista — o médico especializado em endoscopia digestiva — em certos hospitais (não disponível na ESADI). Anestesia local e um sedativo são utilizados. Os procedimentos mais frequentemente realizados são a terapia fotodinâmica, ablação por radiofrequência e coagulação com plasma de argônio.

  • Terapia fotodinâmica: A terapia fotodinâmica usa um químico (hematoporfirina geralmente) que é ativado pela luz, um endoscópio e um laser, para destruir as células pré-cancerosas do esôfago. Quando a hematoporfirina é exposta à luz do laser, produz uma forma de oxigênio que mata as células vizinhas. A hematoporfirina é injetada na veia, e a pessoa retorna 24 a 72 horas mais tarde para concluir o procedimento. A luz do laser passa através do endoscópio e ativa a hematoporfirina para destruir o tecido de Barrett no esôfago. As complicações da terapia fotodinâmica são foto-sensibilidade da pele e dos olhos por cerca de 6 semanas após o procedimento;  queimaduras, inchaço, dor e cicatrizes no tecido saudável próximo à aplicação; tosse, dificuldade para engolir, dor de estômago, respiração dolorosa e falta de ar.
     
  • Ablação por radiofrequência:  A ablação por radiofrequência usa ondas de rádio para destruir células cancerosas e pré-cancerosas. Um eletrodo montado em um balão ou endoscópio leva a energia térmica ao tecido de Barrett. As complicações são dor no peito, cortes na camada da mucosa do esôfago e estenoses — estreitamento do esôfago. Ensaios clínicos têm demonstrado uma menor incidência de efeitos colaterais para ablação por radiofrequência, em comparação com a terapia fotodinâmica.
     
  • Coagulação com plasma de argônio: A coagulação com plasma de argônio é um método em que se utiliza corrente de coagulação de alta-frequência, sem contacto direto, no qual a energia é transferida para o tecido “alvo” através da condução por um gás (argônio) no qual a queima do tecido é interrompida assim que a área está ablada. As principais complicações são dor no peito e dor ao engolir os alimentos (odinofagia). Menos frequentes são o estreitamento (estenose) do esôfago, ulceração, hemorragia e perfuração.

    Para a sua realização são necessários um cilindro contendo o gás de argônio, um gerador eletrocirúrgico de alta freqüência e uma sonda especial de eletrocoagulação, que é passada através do canal de biópsia do endoscópio e possibilita a pulverização do gás de argônio aquecido, plasma de argônio, direcionada para o ponto onde se deseja realizar a eletrocoagulação. A corrente elétrica produz a ionização do gás que passa a ser o meio condutor da corrente elétrica, formando o plasma de gás argônio. A energia térmica produz calor superficial de maneira uniforme, com profundidade de 0,5 a 3,0 mm com risco limitado de dano aos tecidos profundos ou perfurações.

     

Ressecção Endoscópica da Mucosa

A ressecção endoscópica da mucosa envolve o levantamento da parede mais superficial de Barrett injetando uma solução abaixo dela ou aplicando sucção, seguida de sua retirada (corte). O tecido é então removido com um endoscópio. O procedimento é realizado por um endoscopista em determinados centros hospitalares ou ambulatoriais.

São utilizados anestesia local e um sedativo. Se a ressecção endoscópica da mucosa é realizada para tratar o câncer, um ultrassom endoscópico é realizado inicialmente para se ter certeza que o câncer envolve apenas a camada superior de células do esôfago. O ultrassom utiliza um dispositivo chamado transdutor, que emite ondas sonoras para os órgãos, seguras e indolores, para criar uma imagem de sua estrutura.

As complicações podem ser sangramento ou ruptura do esôfago. A ressecção endoscópica da mucosa é por vezes utilizada em combinação com a terapia fotodinâmica.

Cirurgia

A cirurgia do esôfago de Barrett é uma alternativa de tratamento; no entanto, as terapias endoscópicas são preferidas pela maioria dos médicos devido a menores complicações após o procedimento. Esofagectomia é a remoção cirúrgica da área afetada do esôfago. Após a remoção, o esôfago é reconstruído a partir de parte do estômago ou do intestino grosso.

O procedimento é realizado por um cirurgião em um hospital, e anestesia geral. O paciente permanece no hospital por 7 a 14 dias após a cirurgia para se recuperar. A cirurgia pode não ser uma opção para pessoas com esôfago de Barrett e que apresentam outros problemas médicos. Para essas pessoas, tratamentos endoscópicos menos invasivos ou vigilância intensiva contínua deveriam ser considerados.

Alimentação, Dieta e Nutrição
 

As pessoas podem fazer mudanças na dieta para reduzir seu risco de esôfago de Barrett. Uma alta ingestão de frutas, verduras e vitaminas pode ajudar a prevenir a doença. Além disso, para pessoas que têm excesso de peso, perder peso pode reduzir o risco. As pessoas devem falar com o seu médico sobre alterações na dieta que podem ajudar a prevenir o esôfago de Barrett.

Pontos para lembrar
 

  • O esôfago de Barrett é uma condição na qual o tecido que reveste o esôfago é substituído por tecido semelhante ao que reveste o intestino.
  • A verdadeira prevalência de esôfago de Barrett é desconhecida, mas estima-se afetar 1.6 para 6,8 por cento das pessoas.
  • A causa exata do esôfago de Barrett é desconhecida, mas a doença do refluxo gastroesofágico (DRGE) é um fator de risco para a condição.
  • Entre 5 e 10 por cento das pessoas com DRGE desenvolvem esôfago de Barrett. Outros fatores de risco são a obesidade - especificamente altos níveis de gordura abdominal - e fumar. Alguns estudos sugerem que a genética ou gens adquiridos, podem desempenhar algum papel.
  • O esôfago de Barrett é diagnosticado por uma endoscopia digestiva alta (EDA) com biópsias.
  • O risco de adenocarcinoma em pessoas com esôfago de Barrett é cerca de 0.5 por cento por ano.
  • Um médico irá discutir as opções de tratamento para esôfago de Barrett, baseado na saúde geral da pessoa, se a displasia está presente e, caso afirmativo, a gravidade da mesma.
  • As opções de tratamento são os medicamentos, terapias endoscópicas ablativas, ressecção endoscópica da mucosa e cirurgia.
     

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